Estão comentando por aí que você não entende nada de comunicação

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Trabalhar com comunicação não é para os fracos, mesmo que a empreitada pareça suave quando vista de fora. Desmontando uma pilha de clichês e definições engessadas, chegamos à essência do que é fazer da comunicação uma profissão: ter domínio sobre determinado conteúdo, compreender o público receptor da mensagem e, a partir deste entendimento, encontrar brechas para estabelecer o fluxo de informação pretendido. Atualmente, brechas não faltam. Domínio sobre o tema anunciado é um pouco mais raro, mas também não chega ao nível da escassez no mercado. Já a compreensão do receptor é um objetivo cada vez mais distante, afastada por pesquisas de tendências tendenciosas e pelas incansáveis tentativas de resumir o que é irredutível: a essência humana e suas complexas manifestações. Aos interessados em matar essa charada e conectar a ponta do triângulo que falta para marcar o check list da comunicação eficiente, compartilhamos aqui uma descoberta: a essência humana está descrita e escrachada em um ambiente mágico, mais especificamente nos espaços de comentários reservados aos leitores dos portais de notícias na internet. É ali, logo abaixo do relato noticioso, que encontramos a receita de composição do ser humano contemporâneo: individualista, carente, contraditório, preconceituoso e essencialmente agressivo. E assustador, sobretudo.

Entre o estímulo e a resposta, o que passa pela cabeça de um ser humano é um completo mistério. Claro, Freud e seus amigos fizeram um belo trabalho tentando decifrar padrões de comportamento e colocando alguma ordem nessa bagunça toda. E, olhando em volta, misturando alguma experiência de vida com um pouco de sensibilidade, a gente chega até a acreditar que tudo faz sentido. E não é difícil de entender a origem dessa ilusão: somos todos feitos de hábitos. Lugares, pessoas e situações se repetem numa sequência mais ou menos intensa, formando um grande acontecimento que chamamos de vida. Você aí do outro lado provavelmente passa a sua frequentando os mesmos bares, com as mesmas pessoas, discutindo, às vezes sem perceber, variações de um mesmo assunto – as opiniões da mesa podem até divergir em algum ponto, mas sempre dentro de um senso de normalidade validado pelo grupo como aceitável [pausa para a reflexão]. Enfim, precisamos disso, buscamos essa aprovação externa quase como um vício. Precisamos de sentido. Precisamos deste conforto, mesmo que frágil, que só o reconhecimento no outro pode nos dar. E a falsa sensação de sentido segue confortando a nossa existenciazinha até que um fato externo perfure a bolha de significados que talhamos ao nosso redor, revelando que há muitas interpretações possíveis lá fora e trazendo junto com a surpresa a sensação de desconforto típica do estranhamento. Pode ser uma arma apontada para a cabeça ao parar na sinaleira, pode ser a rasteira provocada por uma declaração postada em uma notícia qualquer, contrariando com firmeza princípios que julgávamos como lógicos dentro de um senso comum que só se estende aos que fazem parte da mesma bolha que você.

Sim, existem pessoas que acreditam em um senhor grisalho e cabeludo, de barba imponente, que flutua sobre as nuvens observando (e punindo) aqueles que se masturbam durante o banho. Existem também aqueles receosos, que temem a extinção da humanidade com a ameaça iminente do estabelecimento de uma ditadura gay, tendência disseminada pelas novelas na tentativa de penetrar (opa!) a mente dos reprodutores da moral e dos bons costumes. E a cor da pele? Fator determinante no julgamento de capacidades e direitos de uma pessoa para alguns, tão óbvio e evidente para outros quanto o preço de um bom jantar tipicamente italiano, que não pode ser devidamente apreciado por menos de 80 reais. São pequenas demonstrações de uma realidade paralela que se impõem no nosso caminho costumeiro, uma rota fora do nosso trajeto de sempre, seja qual for, para deixar bem clara a nossa incompetência em conhecer gente.

O espaço de comentários, além de uma fonte extremamente rica para a compreensão da natureza humana, na medida em que agrupa manifestações diferentes e genuínas em torno de um mesmo interesse, representa uma advertência bastante clara para qualquer um que se intitule como profissional da comunicação. E eis aqui o verdadeiro segredo anunciado lá no início do texto, capaz de completar o sentido lógico do fluxo da informação que pretendemos em cada trabalho: você sabe muito menos do que imagina, e a prova está em um pequeno espaço na internet que, sempre que visitado, torna óbvia a nossa incapacidade de mapear comportamentos, assuntos e significados pertinentes aos diferentes tipos humanos. Mostra ainda que estes tipos são muito menos conhecidos do que podemos supor analisando as tendências de comportamento produzidas por empresas especializadas em definir, catalogar, resumir e comercializar constituições como se fossem produtos em uma pequena prateleira, daqueles que podem ser degustados em amostras grátis no formato de relatórios.

Se por um lado o desafio de compreensão desmotiva, já que o conhecimento acadêmico se revela como insuficiente para interpretar os diferentes públicos na realidade do mercado, por outro, estimula porque expande as possibilidades de métodos de compreensão destes diferentes personagens. Deixa claro que é preciso unir conhecimento, criatividade e ousadia com objetivos estratégicos, tanto na coleta quanto na análise de informações que servirão de base para a construção de uma campanha. Em outras palavras, evidencia que é preciso levantar a bunda da cadeira, provavelmente já um pouco gorda por estar habituada à culinária italiana (aquela que não custa menos de 80 reais por prato), para conhecer as diferentes realidades que compõem a mentalidade e os significados manifestados por trás de cada comentário publicado.

A formação essencial para que se estabeleça uma comunicação eficiente com o complexo ser humano contemporâneo não está no fato de o interlocutor ser publicitário, ser jornalista, ser antropólogo ou ser pós graduado. No fim, a formação necessária é a de ser humano, aceitando toda a ignorância obrigatória desta condição, sem nunca perder a curiosidade, a capacidade de questionar e a coragem de furar a bolha que nos cerca para enxergar a verdade que está lá fora.

Diego de Carli é Planejamento Digital, viciado em café e entusiasta do comportamento humano.