Quando qualquer um pode ter um blog, não é qualquer um que pode ter um blog

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Ter um blog e publicar conteúdo para o mundo está ao alcance de qualquer um. Bom, não? Não.  Pode parecer pitaco de ditador, coisa de gente anti-democrática, mas prometo a quem se prolongar por alguns parágrafos uma revisão da opinião – da minha ou da sua.

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Dito isso, vamos por etapas. A forma menos útil de começar esse texto seria explicando o que é um blog. Se você chegou até aqui, a probabilidade de já saber do que se trata é grande. Mas, caso não saiba, basta continuar olhando para sua tela. Olhe para esse texto, olhe o que está em volta, e pronto, você já sabe o que é um blog: um espaço na internet com estrutura administrativa simples, que permite atualização constante e sem complicações.

Mesmo quem se considera leigo no assunto percebe fácil que um blog não é feito de programação complexa, design ultra rebuscado e diagramação impecável. Claro que essas características auxiliam no sucesso de uma publicação, mas o que vai fazer você voltar novamente ao blog, quem sabe até adicioná-lo a sua barra de favoritos, não é exatamente a beleza das formas, mas sim a relevância do conteúdo.

Um para muitos > Muitos para muitos

Não é de hoje que o jornal impresso está em crise – a mesma crise que experimentam os meios de comunicação tradicionais. E um blog, no fim das contas, nada mais é do que a cópia de uma página de jornal que evoluiu com as possibilidades do novo meio. Sendo assim, por vontade própria ou  forçados pelo destino, muitos jornalistas acabaram migrando para o ambiente online – alguns antes mesmo dos próprios jornais. Daí juntou a fome e a vontade de comer: a facilidade de publicação de conteúdo por alguém que, teoricamente, é especialista em transmitir informação. Há casos clássicos dessa revira-volta que merecem ser citados, como o blog do Noblat, que desde 2004 tira proveito da instantaneidade do meio para informar em primeira mão os interessados no cenário político nacional. Outro caso conhecido é o do jornalista cultural Lucio Ribeiro, que usa da sua influência no meio para se adiantar aos demais na divulgação de shows internacionais no Brasil. Por acaso (?) os dois são jornalistas.

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O interessante do panorama atual é que, quando o jornalista era especialista em transmitir a informação, ele não necessariamente era especialista no assunto que tratava. Já em tempos de dominação blogueira, a coisa se inverteu: quem cria um blog, via de regra, pretende tratar de um assunto que domina, mas geralmente não tem formação de comunicador. Qual lado pesa mais nessa equação: o domínio da linguagem e estrutura de conteúdo ou o conhecimento da causa abordada? Os dois têm o mesmo peso, e não estamos falando de talentos natos. Ambos podem ser aprendidos – na faculdade, na vida ou na marra. O que não se pode questionar é a necessidade extrema dessas duas características para a geração de conteúdo de um blog que traga resultados.

Mas por que criar um blog?

Simples: porque é a forma mais eficaz de se enviar uma mensagem para o mundo. Com um blog, se pode compartilhar mágoas, sentimentos, conhecimento. A ferramenta se mostrou tão útil na esfera pessoal que acabou abrindo um talho na armadura dos grandes veículos e empresas, que passaram a adotar, também, essa outra forma de comunicação, muito mais próxima do público do que em qualquer outro momento da comunicação.

A proximidade, claro, traz também seus perigos. Seja qual for o seu negócio ou motivação, a mensagem a ser passada precisa de consistência e relevância antes de tudo, para não passar vergonha diante do público e a sua ideia acabar virando um tiro no pé. Um bom exemplo disso, ou melhor, um péssimo exemplo disso, foi dado por uma conhecida marca de chocolates há não muito tempo. Numa atitude metida a espertalhona, a agência contratada pela empresa alimentícia criou um blog, e criou também um personagem “louco por chocolate”, que contava no diário virtual suas peripécias para manter o vício. Talvez até teria atingido algum sucesso não fosse a publicidade em programas de TV, o que deu um atestado de fake ao personagem. Teve ainda o agravante que anulou todo o princípio de comunicação do viral: a inexistência do espaço para comentários no tal blog. As reações contrárias à proposta não demoraram para aparecer e fizeram um bom barulho. Adivinha onde? Em outros blogs, claro.

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Como já aprendemos, o público não é aquele mesmo idealizado pelos estudos de marketing anos atrás, que desdenhava do consumidor apontando-o como um ser facilmente manipulável, sem muitos critérios. A forma de comunicação que o blog possibilita está engajada em um movimento maior – e se o blog não é o principal propulsor deste movimento, é um dos -, em que a comunicação é uma via de mão dupla. E é nesse canal de comunicação que o consumidor pode mostrar o que sempre foi: tão inteligente quanto você, estrategista de plantão.

Em poucas palavras: seja pessoal ou institucional, o blog precisa, antes de tudo, trazer conteúdo relevante ao público. Por relevância, aqui, entenda-se também transparência e honestidade. E aí chegamos ao terceiro item, a última baliza do nosso foco:

Para quem escrever um blog?

Muito do que foi descrito já responde esta pergunta. Mas há ainda um canto inexplorado dessa questão que justifica a existência de um terceiro tópico: a necessidade de conhecer o público que se pretende atingir. Aqui na casa, além de uma área inteira voltada à geração de conteúdo, temos dois bons exemplos disso. Ambos para o mesmo cliente, a ESPMRS. O blog da graduação e o blog da Escola de Criação possuem perfis distintos, mas não só porque são administrados por pessoas diferentes, mas principalmente porque se dirigem a públicos diferentes: enquanto o primeiro, como sugere o nome, tem como alvo os estudantes de graduação e finalistas do Ensino Médio, o da Escola de Criação é mais abrangente na sua faixa etária, e menos abrangente nos conteúdos abordados, se atendo exclusivamente ao ambiente da criação. A linguagem utilizada nas duas publicações comporta as distinções dos nichos, como deve ser qualquer blog bem sucedido. E isso não se faz com deduções. Se faz com trabalho de pesquisa, com conhecimento e experiência. É responsabilidade do blogueiro, independente da sua formação, tornar interessante o conteúdo e, para isso, o mínimo que se espera é que ele conheça o público ao qual se dirige.

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Depois dessa pincelada nos principais aspectos de um blog, é agora que podemos atar a ponta que ficou solta lá no primeiro parágrafo. E dar algum sentido para o enigma do título, claro. Por que a democracia no meio em questão não é a melhor coisa do mundo? Por causa de uma palavra simples: a qualidade, a grande inimiga da agilidade, que é a palavra de ordem dos nossos dias. E quando qualquer um pode criar um blog, sem filtros e sem critérios básicos, essa vertente da blogosfera (além de estar fadada ao fracasso) dificulta a existência de quem segue as etapas básicas para garantir a vida útil da sua publicação. Você pode ter uma grande ideia, um coração puro e um objetivo nobre em mente, e seu blog, mesmo assim, tem boas chances de afundar em dois toques. E isso porque o seu público, coitado, está perdido no meio de tanto lixo eletrônico, distraído, impossibilitado de enxergar as suas boas intenções. Que perdoem os entusiastas da democracia da informação, mas conteúdo é fundamental.

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E falar em conteúdo, aqui, é abrir uma brecha para esse texto se estender pela eternidade. Poderia se falar sobre linguagem web, normas de redação, ou entrar em definições do que é informação, o que é entretenimento. Mas aí se cairia em um dos pecados da geração de conteúdo para blogs: o excesso, ou a falta de objetividade. Para evitar estes e outros desvios, vamos manter o foco no processo básico de um blog, começando por quem gera o conteúdo, passando pelos porquês e chegando ao destino final: o usuário.